“Não há, no princípio, nada. Nada. O rio liso, dourado, sem uma única ruga e atrás, para além da praia amarela, com suas janelas e portas pretas, o telhado de telhas reverberando ao sol, a casa branca. Sofreando o baio amarelo por um instante no alto do barranco, o Ladeiro olha, sem pestanejar, por um instante, para a casa: a parte esquerda está escondida debaixo das árvores frondosas da rua que desce, em declive, até o rio. O resto resplandece ao sol. Uma figura humana, sentada ao pé de uma árvore, no final da praia, perto das churrasqueiras, é, embora imóvel, o único vestígio de vida na luz mineral. O Ladeiro a vê um segundo depois de ter aparecido sobre o barranco, saindo das árvores da ilha, e de ter contemplado sem pestanejar, para além do rio liso, dourado, sem uma única ruga, a casa branca.” “Ninguém, Nada, Nunca” José Juan Saer. Companhia das Letras. 1997. p. 58
“O Trompeta ficou vários dias tocando em seu quarto, sem comer nem ir ao cabaré. Não deixava dona Angelines fazer a cama nem comia nada do que ela lhe levava, nem as laranjas nem os biscoitos e nem a sopa que parava de fumegar e esfriava sobre o criado-mudo enquanto o Trompeta tocava seu instrumento muito baixo, quase num sussurro, e dona Angelines o ouvia com lágrimas nos olhos, apoiada no batente da porta, sem forças para sair dali e deixar de ouvir aquele lamento tão harmonioso. Às vezes ele tocava no meio da noite, e a vibração do trompete era o uivo lastimoso de um lobo ferido na escuridão da neve, na pradaria revolta dos lencóis do Trompeta, que as vezes permanecia insone e mudo, e durante aqueles dias disse apenas sete palavras: Eu já vi o sorriso da morte” “As Dançarinas Mortas” Antônio Soler. Companhia das Letras, 1998. p. 76-77
“Pelas cinco horas duma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois da árdua jornada que o trouxera da aldeia do Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passo molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no pedrado. Tinha o seu quê de vulgar, o peso do tronco roliço arqueava-lhe as pernas e fazia-o e bambolear a cada passo. Via-se também que não era grande caminhante, a respiração alterosa dificultava-lhe a marcha, mas galgara com coragem duas léguas de barrancos, lama e invernia. Grave assunto o trouxera decerto, penando nos atalhos gandareses, por aquele tempo desabrido.” “Uma Abelha na Chuva” Carlos de Oliveira. Publicações Dom Quixote, 1971 ( quinta edição) (primeira edição- 1953). p. 7-8








